Um cozinhado para desviar atenções

Este fim-de-semana ouvi uma notícia na rádio muito interessante.

O Ministério da Saúde esta á a estudar um menu especial de refeição saudável para tempos de crise.

Pretende-se criar aos portugueses com falta de poder de compra para comer uma alternativa, ou várias, para comprar ingredientes mais baratos mas que permitam confeccionar refeições saudáveis.

Estava à espera, quando ouvi a notícia que o Ministério da Saúde estivesse a criar um menu especial para resolver a crise da saúde.

Mas não. O que se trata é de criar receitas. Não médicas, mas sim gastronómicas.

Esquece-se o Ministério da Saúde que já há muitos anos, principalmente nos últimos 13, que os portugueses vão criando menus alternativos para se sustentarem e sobreviverem face ao reduzido salário que auferem.

Não estará o Ministério da Saúde a trabalhar em contra-ciclo com as orientações prosseguidas pelo restante governo? Com efeito, o governo de José Sócrates continua apostado em agravar a situação dos portugueses, no presente e no futuro.

Continua apostado em dar milhões e milhões de euros a bancos e empresas, sem repercussão na melhoria do mercado de trabalho ou na criação de emprego, na política de grandes investimentos públicos, com matéria-prima estrangeira e para uso de passageiros tesos.

Pelo menos podemos ficar com a esperança de que no futuro TGV ou aeroporto serão servidas refeições anti-crise com a certificação do Ministério da Saúde.

Ou será que esses menus são tão saudáveis que evitam a ida a centros de saúde, urgências ou hospitais que não existem?

Para mim, trata-se tão só de mais um fait divert, ou seja, um cozinhado para desviar as atenções dos portugueses para o que é de realmente urgente e importante.

Na linha da frente também na saúde

Na última reunião de Câmara o executivo propôs para deliberação a aprovação do reconhecimento de interesse municipal da construção de um Hospital Privado e de uma unidade de cuidados continuados em Santiago de Riba-Ul.

Estamos a falar de um equipamento de saúde de grande dimensão que terá uma área de construção de cerca de 7500 m2 no hospital, de 5000 m2 na unidade de cuidados continuados, e uma área comercial de 1000 m2 para apoio a ambas as valências.

Este investimento, totalmente privado e no montante de milhões de euros, assume no contexto actual uma relevância que não podemos ignorar.

Antes de mais este equipamento vai oferecer serviços especializados de saúde nas mais diversas áreas ( maternidade, cardiologia, oncologia, pediatria, ginecologia, medicina nuclear, medicina de transplantes, medicina desportiva, medicina de emergência, imagiologia/radiologia, entre outros), mas depois existem outras vantagens em acolher um equipamento destes de que destaco apenas estas:  a criação de centenas de postos de trabalho directos e indirectos; a atracção de quadros superiores aumentando o fluxo comercial, residencial e cultural no concelho e a requalificação urbanística do espaço onde irá ser implantado.

Oliveira de Azeméis tem apostado nos últimos anos numa área absolutamente estrutural para o nosso desenvolvimento - o ensino superior.

Fruto desse esforço nasceram dois projectos de ensino superior: a Escola Superior Aveiro Norte e a Escola Superior de Enfermagem (ESE). Num como noutro, têm sido formados jovens ao nível da licenciatura e pós-licenciatura, geradores de conhecimento e riqueza para o país.

No caso da ESE o sucesso formativo é mais que evidente e traduz-se na frequência actual de 320 alunos. Alunos que terão mais uma oportunidade para se fixarem no nosso concelho se existirem equipamentos onde possam colocar em prática o que aprenderam.

Esta conjugação entre o estudo e o trabalho é, afinal, a concretização do objectivo do município que desta forma se afirma também na área da saúde.

Recorde-se que a ESE é um investimento privado e com fins lucrativos mas que, ainda assim, mereceu e continua a merecer do município toda a atenção e protecção.

Da mesma forma abraçamos com entusiasmo este projecto de Hospital pelos motivos acima referidos.

Curiosamente, ou talvez não, o Partido Socialista não votou favoravelmente o reconhecimento do interesse municipal.

Só não estranhamos porque se trata de uma posição coerente com outras que tem tomado ao longo deste mandato de oposição ao investimento privado.

Esclarecedor…

Há saúde que resista?

A 14 de Março de 2006 o então Ministro da Saúde, Dr. Correia de Campos, anunciou o encerramento da Maternidade de Oliveira de Azeméis. Foi uma decisão unilateral e plena da prepotência que haveria de levar o Ministro a ser substituído nas suas funções.

Ainda assim, numa fase já algo desesperada de manter-se no governo o Ministro Correia de Campos encetou uma vaga de negociações para vender a imagem de homem de diálogo. Com Oliveira de Azeméis assinou um acordo em Julho de 2007 que previa obras nas degradadas instalações do nosso hospital para ali funcionar um Serviço de Urgência Básico.

Com a preciosa comparticipação financeira da autarquia a Administração Regional de Saúde concretizou as obras e o serviço foi inaugurado funcionando relativamente bem.

Só que, o tal acordo firmado há quase dois anos previa também que o Centro de Saúde funcionasse em horário alargado, através do sistema de «consulta aberta». Deveria o Centro de Saúde ter passado a funcionar entre as 08h00 e as 22h00, nos dias úteis, e entre as 09h00 e as 15h00, aos fins-de-semana e feriados. Em períodos excepcionais “em função da procura e de períodos sazonais em que aumenta a população residente sem médico de família” previa ainda que estas consultas abertas pudessem funcionar até às 24 horas.

Mas o que aconteceu? Tudo ficou como estava…

O documento previa também a criação de Unidades de Saúde Familiares e uma Rede de Cuidados de Continuados Integrados destinada a «reorientar a procura dos cuidados de saúde primários» e adequar melhor os cuidados prestados no domicílio».

Mas o que aconteceu? Nada…

Perante isto temos que nos questionar se as reais intenções do Ministério da Saúde são, efectivamente, concretizar aquilo a que se obrigou através do protocolo assinado.

Ainda sobre o estado da saúde em Oliveira de Azeméis importa questionar o estado do processo do novo hospital.

Em Abril de 2008 num despacho da actual Ministra da Saúde assume-se pela primeira vez que vai ser construído um novo Hospital em Oliveira de Azeméis mas de então para cá a única evolução conhecida sobre a matéria é a disponibilização de terrenos pela autarquia para a sua construção confirmada na resposta do Ministério da Saúde a um requerimento do deputado Hermínio Loureiro sobre o assunto.

A somar a tudo isto temos vindo a assistir de forma mais ou menos velada a uma desmobilização de serviços e valências no Hospital de Oliveira de Azeméis.

Para completar este retrato sombrio temos o adiamento sucessivo da conclusão do novo Centro de Saúde mesmo depois do empreiteiro ter abandonado a obra há anos.

Há saúde que resista a este estado de coisas?

Saúde

Saúde. A par da educação e da justiça  é um assunto que não deve ser tratado de forma simplex.

O que é que nos pode acontecer, hoje, se tivermos uma doença e houver a necessidade de  recorrermos a um hospital ou a um centro de saúde? Pensamos 2 vezes, tentamos esquecer a doença porque pode ser  que ela passe, chamamos ou vamos ter com um médico conhecido, ou, se continuamos a manter essa necessidade desesperamos com medo.

Não é por causa das pessoas que trabalham neste sector, que são duma dedicação e profissionalismo de excelência.

Mas hoje o que nos espera é ter de aguardar 4 ou 5 horas num serviço de urgência ou ver um filho nascer numa ambulância.

Portugal é dos piores países europeus em matéria de acesso aos cuidados de saúde, tendo caído 10 lugares nos últimos 2 anos (estudo da ” Health Consumer Powerhouse, Novembro/2008).

A saúde é a área social mais desprezada no Orçamento de Estado para 2009.

Este Governo diminuiu os apoios às famílias na aquisição de medicamentos, reduzindo as comparticipações e aumentando as taxas moderadoras das urgências.

Para reduzir e controlar as despesas do estado, o governo tem atrasado a dispensa de  medicamentos (oncologia) nos hospitais públicos. Tal é um facto que recentemente o grupo de estudos do cancro do pulmão divulgou em estudo que identifica este problema.

Hospitais? Onde estão os prometidos?

O nosso novo centro de saúde está parado há mais de 3 anos, por falta de pagamento do Estado ao empreiteiro.

Se fosse um banco de saúde!

Este Governo assumiu compromissos com o nosso hospital. Para quando?

É claro que para alguns a resposta para estes problemas é o simplex - encerra-se, morre-se, desenrasquem-se.

Esta matéria não pode integrar qualquer programa Simplex; a saúde é um assunto  extremamente sério para reduzir à frieza dos números; não é um qualquer negócio que possa, como tal, ser avaliado em busca de lucros.

A saúde é um serviço público, um dever do Estado, não um qualquer favor que tem de nos ser prestado…